carta amarela #62 – a tal da felicidade

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Paris, 29 de agosto de 2013

Queridos amigos,

Achei interessante a repercussão que tive com a entrevista ao Agora Sim. Mais interessante ainda foi ver a frase em que muitos se fixaram, a que eu falo a palavra felicidade. Não quero iludir ninguém. Minha vida não é plena de felicidade, mas a de ninguém é também.

amor

Há uma ilusão muito grande a respeito da felicidade. O cinema, as histórias, a publicidade, tudo vende uma vida linda, um final feliz. E as pessoas tem perseguido isso exaustivamente. E com isso mais e mais casos de infelicidade. As pequenas conquistas não são celebradas, afinal, o amor não é perfeito, o trabalho não é perfeito. É uma constante insatisfação com a vida. Podemos até achar que aquele amigo é mais feliz, que o vizinho é mais feliz, que o trabalho do outro o faz mais feliz. Isso, claro, só joga a gente ainda mais pra baixo.

Dia desses ouvi um amigo dizer que não procurava mais o amor, pois estava cansado de sofrer. Que tristeza é ouvir isso! Sofrer é parte da vida também. Muitos dos meus sofrimentos me fizeram uma pessoa melhor. Uma pessoa mais forte. E me fizeram até uma pessoa mais sensível perante aos esforços alheios também. Celebro meu relacionamento imperfeito, celebro também cada dia que vendo um bolo. Tá, é só um bolo, mas cada um deles me faz ser um profissional cada vez melhor. Cada um deles me traz um pouquinho mais de dinheiro. Cada um deles faz uma família ou grupo de amigos mais feliz por alguns momentos.

Essa nova geração foi criada com tudo muito fácil – me lembro de ter que percorrer livros e barsas pra fazer trabalhos de escola – que ainda tinham que ser escritos à mão com a caligrafia mais caprichada possível. A gente teve cada vez mais facilidades e liberdades e no fundo não sabemos lidar com isso. E daí a grande frustração ao entrar no mercado de trabalho, a grande frustração ao ir ali viver a vida: nada é fácil, nada vem na mão. É porque esquecemos também do valor de um outro conceito: esforço.

Como disse na entrevista, tenho sido mais feliz ao tentar simplificar a vida. Consumir menos, querer menos coisas muito distantes da minha realidade, aprender a ser feliz com o que sou e tenho. Aprender que sofrer também faz parte, a vida é transitória: há momentos tristes, mas também há os felizes. Que os amores são imperfeitos, que príncipe encantado só existe na ficção. Que meu trabalho às vezes é chato, que a semana é feita também de segunda a sexta, e não só de sábados e domingos. Sentir feliz simplesmente por um abraço apertado de alguém querido.

Tenho aprendido a gostar da vida. Afinal, a vida só gosta de quem também gosta dela.

Beijos felizes por estar num lugar onde gosto de chamar de lar,

Gui

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10 Respostas to “carta amarela #62 – a tal da felicidade”

  1. Alessandra C. Martini Says:

    “Felicidade se acha em horinhas de descuido”. Isso tem feito cada vez mais parte do meu dia. E tenho me tornado cada vez mais uma admiradora sua e dos seus textos (pq infelizmente moro longe pra falar da comida) 🙂

  2. Nathália Cunha Says:

    Gui,

    como um monte de gente, adorei teu texto e adoro e admiro o seu trabalho. Mas não só pela coragem de começar tudo de novo, mas por conseguir pegar a parte que você mais gosta do design, a parte que você mais gosta da gastronomia e criar uma coisa só sua. Acho que o grande valor está aí.

    Mas o que mais me chamou atenção foi quando você fala justamente isso, de viver uma vida mais simples, com menos quereres, menos consumismos , menos ter e mais ser. É isso que eu venho tentando fazer, embora seja difícil abrir mão de algumas coisas. Não faz o menor sentido você ter um trabalho que não gosta só porque ele te permite ter outras coisas que você gosta. Pelo menos, é o que eu venho acreditando ultimamente. Mas como tudo na vida, esse processo de simplificação é menos uma decisão instantânea e mais um caminho a ser percorrido. E acho que eu fico feliz só de já estar nele.

    beijo grande pra você

  3. mdsmartins Says:

    Adoro suas cartas amarelas! ❤
    Muito amor pra você, Gui!

  4. Pollyanna Guimarães Says:

    Oi Gui,
    acho lindo todo o seu trabalho (culinários e os textos do blog) e a doçura como você o descreve e nos transmite. Gosto de vir aqui para me contagiar de toda esta energia linda que você transmite, porque feliz é aquele que compartilha amor e aqui eu vejo isso! Beijo.

  5. Grasi Says:

    Adoro seu blog! Adoro suas palavras escritas! Faço aniversario em Dezembro e quero muito ter o prazer de comemorar com um bolo feito por você…se Deus quiser!

  6. Rogéria Says:

    Gui, há pouco tempo comecei seguir seu blog e seus textos são incríveis!
    Parabéns!

  7. gabi3084 Says:

    Gui!
    Você é uma pessoa iluminada! Ver seu olhar sobre a vida faz a gente parar para analisar a nossa… Juro que queria demais um amigo como você! Admiro muito a sua pessoa e desejo do fundo do coração tudo o que há de bom nesse mundo e nos outros também!
    Me explica como é que a gente pode gostar tanto de alguém que
    nem conhece a gente?! 🙂

    Beijos!!!

  8. Graziela Machado Says:

    Chorei era tudo que precisava ler hoje!Adoro tudo aqui!

  9. top 5 2013 – livros e cartas amarelas | Says:

    […] Cada vez tenho tido mais consciência do que é a felicidade, e de como a gente precisa colocar ela aqui do nosso lado e entender que meu trabalho por vezes é chato e cansativo, que as relações são complicadas e tem seus altos e baixos, que a gente sofre, mas que a vida é transitória. E quando a gente vai simplificando nossa vida, talvez seja aí um caminho pra ser mais feliz. [a carta inteira aqui] […]

  10. carta amarela #75 – a tal da felicidade – parte II | Says:

    […] que tive lá em agosto do ano passado das pessoas entenderem errado umas palavras que eu disse numa entrevista. As pessoas tem essa ilusão de que fazer o que ama vai deixá-las completamente felizes, mas não […]

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